“As desculpas dos pacientes”

O paciente, principalmente nas etapas iniciais da doença em que percebe a perda da memória, deixa de fazer suas atividades corriqueiras, mudando seus hábitos de maneira radical.

Hábitos como amarrar os cadarços do tênis, dirigir-se sozinho ao banheiro, ligar o microondas, colocar uma roupa pendurada no varal, ou até mesmo expressar seus pensamentos e opiniões como antes, serão realizados de maneira diferente.

Enquanto tem ainda noção de que alguma coisa não está funcionando bem no seu organismo, ou não se lembra como fazer determinada atividade, arranjará sempre um “jeitinho” de driblar o cuidador dando uma “desculpa” que não faz o menor sentido lógico.

Para melhor compreensão passamos a relatar um caso clínico de um paciente, o qual já tomava medicação apropriada, mas, que ainda preservava suas atividades como se pudesse fazê-las sozinho.

Médico idosa

O paciente X, casado há mais de trinta anos, sem filhos, sempre viveu com sua mulher, tendo tido uma vida de muitos afazeres, mesmo depois de aposentado. Pessoa culta, bem informada, desempenhava tarefas da casa, tais como: lavar a louça, fazer compras de supermercado, pagamentos bancários e, sempre que podia, viajava com sua esposa, inclusive para o exterior. Em um período de 2 anos, começou a ter “medo” de sair à noite, da opinião do irmão sobre suas viagens e a desinteirar-se pelas tarefas domésticas, que antes fazia com prazer.

Em todas as situações, X sempre tinha uma resposta imediata para “desculpar-se”, justificando assim, o não fazer aquela determinada atividade. Se a esposa pendurasse uma roupa no varal, ia lá em outro momento e pendurava a mesma roupa toda enrolada e dizia que assim estava bem, porque a roupa estava molhada (não estava); quanto aos pagamentos, não ia ao banco sozinho porque tinha medo de passar mal na rua; se ficasse sozinho em casa na hora do almoço telefonava para a esposa dizendo que ia almoçar fora, porque não conseguia ligar o microondas, mesmo com as instruções anotadas; não caminhava mais, não andava na bicicleta ergométrica porque tinha “preguiça”; com relação às viagens "não podia ir, em função dos pagamentos que tinha que fazer ou porque o irmão não iria aprovar.''(Alegações que não coincidiam com a realidade)

Tais comportamentos acontecem, primeiramente, porque o paciente está com sua memória bastante prejudicada, o Alzheimer provoca delírios e alucinações; imagina, assim, situações inexistentes, aparentando um medo real de pessoas e lugares.

O Cuidador não deve ficar sem saber o que fazer, mas, ter conhecimento que o paciente não quer que descubram que ele está doente, e, principalmente, com a sua memória prejudicada.

Quando tais fatos acontecerem, o paciente não deve ser criticado, e quem dele cuida deve deixar passar a situação, e, em outra oportunidade tentar lidar com a memória preservada que ainda tem, e mais uma vez, ensinar-lhe como realizar aquela tarefa, ou explicar-lhe que não deve temer a opinião de quem quer seja , ou ter receio de ir a algum lugar.

Se o Cuidador notar que o paciente não consegue aceitar as explicações dadas, não deve insistir, pois, ficará triste ou muito agressivo. Com o passar do tempo o portador do Mal de Alzheimer não se lembra de mais nada e vive completamente fora da realidade.

Norma Quintella

23/08/2007